Experiência pedagógica do Núcleo Musical Irmã Sheilla

Era uma aula de flauta doce. As Professoras Liliane e Mirty sempre dividem o horário de aula em dois momentos: trabalho individual e em grupo. Liliane estava atendendo individualmente a aluna Jasmine, de nove anos, que apresentava muita dificuldade para aprender a lição musical e após muitas tentativas Liliane sugeriu que os alunos Wesley, de 10 anos e Vitor, 14 anos se dirigissem a outra sala de aula onde deveriam estudar juntos, enquanto ela atenderia aos outros alunos devendo chamá-la no final da aula.

Os dois alunos apanharam a apostila, o apagador e o pincel e conduziram Jasmine para a sala indicada. Segui-os, silenciosamente e fiquei observando o que iriam fazer.

Logo ao chegar, os alunos assumiram a postura de professor.

Wesley passou para o quadro a lição na forma de partitura e disse:

– Pronto, a lição já está no quadro, agora vamos aprender…

Jasmine já estava com a flauta na posição para começar a tocar, mas, Wesley falou:

– Primeiro você vai fazer a leitura das notas musicais… Como é que você vai tocar se não conhece bem as notas?

E assim, totalmente imbuído da condição de professor, cada vez que Jasmine errava, ele fazia com que ela voltasse. Wesley repetia fielmente, todas as estratégias de ensino, utilizadas pela professora, até que Jasmine conseguiu tocar toda a primeira parte da música.

– Pronto Vitor, agora é você que vai ensinar a segunda parte.

Vitor, muito calmo, pôs o braço sobre os ombros de Jasmine e disse:

– Vamos Jasmine, fique tranqüila que você vai conseguir.

E ela errava uma vez atrás da outra, mas Vitor não se impacientava, sempre estimulando-a:

– Continue Jasmine, é assim mesmo, vamos aprender por parte;

E dividiu a lição em várias partes para facilitar a aprendizagem.

Em determinada nota ela não acertava uma vez sequer, e ele, que mais parecia um velho professor, insistia:

– Não tem importância, Jasmine, é errando que se aprende, veja, eu também errei muito para aprender essa parte, mas aprendi e você também vai conseguir.

Dessa forma, chegaram ao final da lição. E os dois aplaudiram-na por ter conseguido tocar as duas partes da música.

Quando íamos voltando para a sala de aula Wesley me inquiriu:

– Viu, Tia?

Perguntei:

– O quê?

– Nós já sabemos dar aula de música!…

Eu respondi:

– Vi. Vocês foram muito bem, parabéns!…

Wesley continuou:

– Pois é, fique tranqüila, tia, agora você não precisa mais se preocupar…

Então indaguei:

– Com quê?

– Porque, quando a Universidade não estiver mais pagando aos professores, eu e Vitor vamos continuar dando aula aos meninos.

Saí dali tomada de uma emoção imensurável, pela grandeza daquele momento, que infelizmente não tive condições de filmar para fazer um registro mais fiel, mas sei que sob o olhar de um verdadeiro educador, este simples relato dá margem a uma profunda interpretação pedagógica e sociológica sem falar do que se pode entender do ponto de vista espiritual.

A experiência da aprendizagem da música para as crianças e adolescentes das comunidades menos favorecidas oportuniza-lhes momentos de suspensão do seu cotidiano, da sua realidade de vida cruel e violenta, e descortina possibilidades para novas e melhores escolhas.

Terezinha Mendonça
Coordenadora do Núcleo.

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