Ensina-nos a orar – Palestra Peixotinho, 10/02/2013 – Suzana Cortez

O texto motivador de nosso estudo hoje “Ensina-nos a orar” é o quinto capítulo do livro Luz do Mundo de autoria de Amélia Rodrigues com psicografia de Divaldo Franco.

Neste texto, Amélia Rodrigues relata a situação em que o Cristo junto aos seus discípulos viu-se motivado para ensiná-los a orar, deixando-nos como legado a oração do Pai Nosso. O relato de Amélia Rodrigues amplia nossa visão acerca da sublimidade e da grandeza desse momento (registrado nos evangelhos de Mateus e Lucas), convidando-nos a refletir sobre as motivações do Cristo para este feito: deixar-nos uma oração que sintetiza sua Doutrina, um verdadeiro canto de amor e abnegação ao Pai.

Mas, por que o Cristo deixou-nos o Pai Nosso? Qual o sentido desses sete versos, os mais simples e harmoniosos, que jamais os homens haviam escutado? Em outros termos, o que levou o Cristo a endereçar aos discípulos uma oração que não apenas testemunha tudo o que Ele lhes ensinou – reconhecimento da existência de Deus, resignação diante de suas determinações, entrega total, confiança ilimitada, humildade, perdão, reconhecimento dos erros e das fragilidades, amor ao próximo –, mas também sintetiza as necessidades humanas?

Naquele momento, no planalto da Judeia, precisamente na aldeia de Ephrém ou Efraim, diante do belo cenário em que Jesus se encontrava com seus discípulos, a visão dos horizontes era um convite à meditação, às coisas divinas, fazendo com que o homem se sentisse pequeno diante da grandeza de Deus.

Nessa atmosfera de paz e humildade, motivada pela presença do Cristo e pelo cenário exuberante, Jesus falava aos discípulos sobre a comunhão com o Pai, a ligação com Deus, sobre o “abrir a boca” da alma. Ele mesmo, em muitos momentos de sua jornada terrena, retirava-se e recolhia-se em solilóquio para diálogo com Deus e nunca deixou de falar sobre a necessidade da oração. Naquele momento, Jesus sabia que seu desencarne não tardaria e que as lições seriam interrompidas, o que Ele provavelmente lamentava, porquanto, certamente, ainda havia muito a dizer, a ENSINAR a nós, “crianças espirituais”, que não temos a noção exata daquilo que o Pai nos pede.

E exatamente essa falta de noção, essa condição de aprendizes, figurada pelos seus discípulos, fazem estes indagarem sobre a melhor forma de orar. Qual a melhor forma de orar Àquele que é a Vida e que sabe das necessidades de cada um? Os discípulos questionavam Jesus: por que precisamos rogar a Deus se Ele sabe tudo sobre nós, inclusive sobre o de que precisamos? Nesse momento, um dos discípulos de forma ansiosa e sincera pediu tal como uma criança: “Ensina-nos a orar”.

Cabe-nos aqui uma reflexão: estamos preocupados em aprender a fazer a prece mais eficaz? A mais bela? A mais nobre? Aquela no mesmo horário apenas para cumprir uma rotina pessoal ou coletiva? Mas onde, afinal, reside a eficácia da prece? Nas palavras e formas, ou no sentimento endereçado a Deus através de nossas ações e atitudes que nos tornam cristãos de verdade, obreiros eficazes? Pensemos…

Naquele momento, Jesus, na sua misericórdia infinda, sabia que os discípulos desejavam adquirir forças para, no futuro, se entregarem inteiramente ao Evangelho e sabia também das ânsias que surgiriam através dos tempos nos continuadores de Sua Doutrina.

Jesus, então, invoca a oração no Pai Nosso. Parecia cantar, como se um coral de anjos ao longe o acompanhasse. “Pai nosso que estás nos Céus”. O primeiro verso é uma glorificação d’Aquele que é a vida da vida, causa do existir. Os três versos seguintes:

“Santificado seja o Teu nome.
Venha nós o Teu reino,
Seja feita a Tua vontade, na Terra como no Céu.”

expressam três desejos nossos na direção da vida: reconhecimento da existência de Deus, respeito à grandeza de sua criação, resignação diante de suas determinações, humildade e subordinação da alma que ora, entrega total em confiança ilimitada.

Os três últimos versos expressam três rogativas, em que o homem compreende a sua pequenez e se levanta, confiante, de modo que nada do que solicita lhe será negado:

“O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje;
Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores;
Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos de todo o mal.”

O “pão nosso de cada dia” refere-se ao alimento sadio, diário, equilibrado como sendo a base da manutenção do corpo, pois estamos encarnados e precisamos não só de sustento para a matéria, mas também de força para o espírito. A oração é, por isso, um meio de vitalizar o espírito através de energias transcendentes, isto é, energias além da matéria, acima de nossa vibração psíquica que nos põem em conexão com o Alto.

O reconhecimento dos erros e danos causados a si mesmo e ao próximo é expresso no pedido de perdão, que enseja oportunidade de recomeçar e refazer, sem desânimo, pela superação de si mesmo e ajuda aos que são nossas vítimas. O pedido de não cair em tentação e livrar-nos do mal revela o reconhecimento das nossas inúmeras fragilidades a cada instante e que também nos surpreendem.

Oração como intercâmbio entre os planos material e espiritual

Segundo expressa Amélia Rodrigues, ao ensinar o Pai Nosso, a oração mais completa jamais enunciada, lança-se a ponte intercâmbio entre os dois planos do mundo: o material e o espiritual, estando o Reino de Deus mais próximo através da conexão permanente com Deus, por meio da oração. O Pai Nosso, sem dúvida, sintetiza, de forma simples, as necessidades humanas e a Doutrina do Cristo. Contudo, não se pode confundir tal simplicidade com superficialidade ou como um modelo pronto e fechado. Ao contrário, a oração do Pai Nosso sempre será um convite para nos (re)ligarmos a Deus e um alerta para nossa conduta e reflexão.

Cada verso contem os mais vigorosos ensinamentos de tal modo que quanto mais o Espírito se elevar, mais apreenderá e sentir a riqueza dessa reflexão, que será refletida naturalmente e fortemente em suas ações e pensamentos. Ao nos ensinar a orar através do Pai Nosso, o Cristo não nos deixou um modelo a ser maquinalmente copiado – não somos máquinas de xérox ou aparelhos de impressão, mas instrumentos de EXPRESSÃO e AMOR a serviço do Pai!

Oração como instrumento de evolução e elevação

Ao deixar a oração do Pai Nosso, o Cristo ensina-nos que a oração é um instrumento poderoso de conexão, devendo seu conteúdo ser sempre pensado e praticado à luz de nossa individualidade, que nos LEVA e nos ELEVA ao Pai. Nós precisamos, então, prosseguir no “roteiro de redenção”, traçado para esta encarnação, o que poderá se tornar (ou talvez já seja) insuportável, difícil mesmo de executar se não estivermos em comunhão/comunicação com o Pai, quer dizer, se não orarmos. Por isso, a oração é, conforme nos ensina Amélia Rodrigues, um instrumento de evolução e elevação, pois nos permite ELEVAR as ideias, o padrão vibratório de nossos pensamentos de modo que estes estejam embasados no sentimento de amor e de fraternidade.

Além disso, não se evolui sem o INTERCÂMBIO espiritual, que a oração nos faz experimentar, porque o intercâmbio nos permite vencer as indecisões e ansiedades. Disto resulta, a potência iluminadora da oração. Os caminhos se abrem, a mente se eleva, o espírito recebe inspiração e torna-se vigilante, aprendendo a escolher e a avançar. Através da revelação do Pai Nosso, Cristo mostra que não existe uma separação estanque entre, de um lado, Deus no Céu e, por outro, o homem na Terra. Ao contrário, Ele rompe com esse díptico e ensina que o “homem sobe ao Pai no Céu e o Pai desce ao homem na Terra”.

Em síntese, como registra Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, “o objetivo da prece é elevar nossa alma a Deus”, não importando a diversidade das formulações, pois “Deus as aceita todas quando são sinceras”. Oremos, portanto, segundo nossas convicções e de modo que nos sintamos e nos encontremos em sincera conexão com o Pai.

RODRIGUES, Amélia (Espírito). Luz do Mundo. Psicografia de Divaldo Pereira Franco. 8ed. Salvador: Livraria Espírita Alvorada, 2003.

Galeria | Esse post foi publicado em Artigos, Palestras. Bookmark o link permanente.