Sobre Filhos – Texto de Djenane Mendonça

Sobre Filhos

“Se você educa a inteligência emocional dos seus filhos com elogio, quando eles esperam uma bronca, com um encorajamento, quando eles esperam uma reação agressiva, com uma atitude afetuosa, quando eles esperam um ataque de raiva, eles se encantarão e registrarão você com grandeza. Os pais se tornarão assim agentes de mudança. Bons pais dizem aos filhos: “Você está errado”. Pais brilhantes dizem: “O que você acha de seu comportamento?” Bons pais dizem: “Você falhou de novo.” Pais brilhantes dizem: “pense antes de reagir.” Bons pais punem quando os filhos fracassam, pais brilhantes os estimulam a fazer de cada lágrima, uma oportunidade de crescimento.” (Augusto Cury)

   Primeira preciosa inferência quando se trata dos filhos: não há fórmula especifica para se criá-los bem. Há, sim, princípios, estes alicerçados numa percepção de que nossos filhos são individualidades, pessoas singulares, cada um com necessidades diversas de cuidado, de orientação, não obstante existam valores essenciais que devem estar na base de qualquer educação, como ensinar aos filhos que, antes de qualquer valor nacionalista, a humanidade está em toda parte e que, todos, absolutamente todos, para além fronteiras, somos irmãos.

   Ensinar aos filhos, religiosamente, a perceber as diferenças como a beleza de ser de cada um, como riqueza humana, porém jamais admitir a desigualdade, esta que é filha do preconceito e da ignorância. Ensinar também, com determinação, que a Terra toda e, por que não, todas as estrelas, são nossa casa e da casa a gente cuida, vive nela, sem degradar.

   Falar sobre Deus para as crianças. Não um Deus punitivo e medieval. Este é criação da doença humana. Falar de Deus, causa primeira de todas as coisas, que fez o mar e as estrelinhas do mar, que fez o céu e também as estrelinhas do céu, Deus Imanente, amoroso como uma brisa na copa das árvores.

   Porém, como cada filho nosso é um universo inteiro, nosso olhar de pai e de mãe para eles deve buscar captar a singularidade de cada um, o ser único em si mesmo, demandando certos cuidados e orientações, conforme os aspectos da personalidade forem se revelando. Há palavras que a gente não precisa dizer para certo filho e que são exatamente o que aquele outro precisa ouvir. Se houver alguma fórmula básica para criar nossos meninos e meninas, nela, certamente, o ingrediente essencial é o amor.

   Devemos ponderar, como pais e mães, que a acepção da palavra filho diz respeito a todas aquelas pessoas em singular condição de desenvolvimento, crianças e adolescentes, que estão sob nossa tutela moral e afetiva. Filho é filho e fique bem claro que não há mais no dicionário das famílias o filho adotado. Apenas filhos, sejam eles gestados no ventre, sejam gestados no coração, procurados por nós e reencontrados pela via da adoção. É grave quando os pais ou alguém próximo se reporta a criança ou ao jovem como “o adotado”. Assim: “estes sairam da minha barriga, este não”. Isso é mal trato psíquico. Filho é filho e ponto.

   Há também, nas múltiplas conjunções familiares de hoje, o filho pelo afeto. Ah! Este filho existe, como não? O afeto gera filhos. É aquela criança que cresce junto da gente, seja filho do novo companheiro, seja o filho da irmã que mora na sua casa e você faz a paternagem ou a maternagem. Seja qual fora a via de reencontro, o que importa mesmo é o cuidado, é ajudar aquela pessoinha a ser no mundo e, posteriormente, forte em suas bases afetivas, ser ao mundo.

   Na família, aqui entendida como locus essencial onde se cuida e se é cuidado, é preciso cada um ocupar o seu lugar. Acaso pai e mãe constituam a entidade familiar ou estejam pelas circunstâncias fora dela, pois pais podem se divorciar, o pai deve ser pai e a mãe, mãe. Quando um passa a ocupar a função do outro, a criança se fragiliza. Expliquemos, é grave quando aquele que é o pai não sabe sê-lo ou aquela que é a mãe também não. Isso ocorre quando a pessoa, mesmo convivendo com os filhos, não assume o seu papel. É aquela mãe infantilizada, que não superou a condição de filha e que não exerce sua função maternal, assim também é aquele pai meninão, muitas vezes, negligente em sua forma de se relacionar com as pessoas, que não sabe ocupar o seu lugar de pai.

   A criança e o jovem precisam de rotina e de referências bem assentadas para se desenvolverem de forma saudável. Rotina aqui não diz respeito ao sem graça, ao repetitivo, mas à segurança, à estabilidade que ajuda no desenvolvimento equilibrado. Horário certo para fazer as refeições, banhar-se, fazer tarefas, brincar, dormir. Convívio em família. Cresce insegura e ferida em suas bases afetivas a criança exposta a situações de abandono e descuidado. E atentar para os maltratos psíquicos: palavras cruéis e estigmatizantes. Estas deixam marcas indeléveis. Dos lábios dos pais devem sair palavras educativas, orientadoras, banhadas na luz da esperança de que aquela pessoinha, aquele jovem é um projeto de beleza e de felicidade. Jamais destruir os sonhos do filho com o fel de nossos desajustes emocionais. Há uma violência velada a que muitas crianças e jovens são expostos: a violência do abandono moral e afetivo. Busquemos nos equilibrar: somos os adultos.

   Hoje todos estamos muito atarefados, múltiplas necessidades de viver. Não é preciso parar de estudar, trabalhar para ser boa mãe ou um bom pai. A criança não precisa de você na cola dela diuturnamente, mas de uma presença que seja banhada na qualidade do bem conviver. Acaso sua opção foi a de se dedicar integralmente ao filho, fazer isso com consciência, como opção pessoal, para depois não culpá-los por possíveis frustrações, sobretudo, porque filho bem criado voa bem alto com asas fortes. Se Se bem amados, vão sair do ninho,, e é bom que assim seja. Pai e mãe bons são aqueles que ensinam a autonomia, a porta do enfrentamento da vida, mas nunca deixam de ser cais, porto seguro para onde se pode voltar e ancorar o barco cansado, antes das novas navegações.

   Outro aspecto relevante diz respeito ao olhar. Há uma linguagem que se constrói no ar que se respira dentro de casa. É preciso cuidar dos olhares que mais ferem a criança do que as incentiva a avançar. Olhar com afeto, com esperança. É preciso, de fato, mostrar os limites, as regras de convivência. Porém, muito castigo sem sentido e gritaria não ajudam a ninguém.

   Evitar comparar os filhos. Cada pessoa, além de necessidades diferentes, tem um tempo diverso. O que um filho aprende rápido e já expressa, outro pode demorar mais. Saber esperar o tempo de cada um, confiar nas sementes plantadas e não permitir, na ansiedade de ‘enquadrar’ a criança em determinado padrão de comportamento, que ela seja cerceada em seu direito de crescer e desenvolver suas habilidades. Nosso filho tem direito de ser ele mesmo.

   Filhos não se prestam à vitrine. Não se tem filho para mostrar na sociedade um projeto ideal de pessoa. Filho é alguém que chega para que a gente aprenda a acolher, a cuidar, a amar incondicionalmente. Não raro, encontramos pais frustrados tentarem realizar nos filhos o que não conseguiram ser.

   Cuidar, sobremaneira de pensar as atitudes na prática de ser pai e de ser mãe. Frequentemente, o filho problema, adoecido na sua forma de estar no mundo, é a carta viva da doença da própria família .Busca na droga, no álcool ou nas atitudes desajustadas, expressar o desafeto recebido, o descuidado.

   Às vezes, este filho pode não aparentar o desajuste na conduta, mas a mácula afetiva se revela em certas doenças que lhe acometem o corpo físico: gastrite, refluxo, asma crônica, doenças da tireoide, por exemplo. Conhecemos uma jovem, vítima de alienação parental feita pela mãe em relação ao pai, que desenvolveu a anorexia. Esta doença retrata um profundo raquitismo afetivo, a pessoa deseja morrer inconscientemente: como precisou matar o amor que sentia pelo pai para agradar a mãe ressentida, não se permite nutrir por mais nada. O filho problema desnuda a todos. Assim, não se resolve a situação deste, sem cuidar em conjunto do grupo familiar.

   É isso aí. Não é uma brincadeira ser pai e ser mãe. Ao contrário, é um significado de viver que demanda de nós permanente autoanálise, burilamento íntimo e decisão de amar. Já se disse que a família é o âmbito privilegiado do cuidado. Pessoas cuidadas, amadas, bem orientadas na direção de princípios humanistas, têm mais chances de serem ao mundo de forma bela e construtiva.

   Por isso, amigo, segura nas mãos de sua criança, cuide bem de seu adolescente, do seu jovem. Os cuidados materiais são necessários, mas há uma marca profunda e benéfica que se deixa numa pessoa em condição especial de desenvolvimento, a marca da convivência afetuosa: ensinar a empinar pipa, fazer castelos de areia na praia, ir juntos conversando até a escola, orar juntos,andar de bicicleta, catar conchinhas, correr no parque, soltar bolinhas de sabão. Levar na festa e ir buscar, procurar conhecer com quem anda seu filho, ler livros de histórias, plantar árvores e ver, no céu, o arco-íris se formar após a chuva.

Djenane Mendonça

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